sábado, setembro 03, 2005

O NOVO ANO LECTIVO

Em Setembro recomeçam as aulas para a maioria dos alunos. Muitos outros, porém, vão pela primeira vez entrar numa escola. Será o início de uma longa caminhada onde não faltarão bons e maus momentos. Será sempre um período caracterizado por expectativas, novidades e descobertas mas também por muitas decepções, incertezas e aborrecimentos. As exigências serão grandes não só para os alunos e os professores como também para os pais.

Ir para a escola é algo fantástico na nossa vida pois é ali que poderemos, de forma metódica, enriquecer a nossa mente com novos saberes e novas experiências. Por muito desinteressantes que as matérias nos pareçam (e às vezes, são mesmo desinteressantes) a escola dá-nos instrumentos fabulosos para elevarmos a nossa inteligência e alargamos os horizontes da nossa consciência. Todo esse esforço pode também ser de grande valia para tornar o nosso modo de pensar mais ágil e mais estruturado.

De facto, à medida que vamos conhecendo a geografia, a história, as operações de cálculo e tudo o mais que a escola propõe não apenas enriquecemos a nossa cultura geral como ao nível do próprio cérebro ele torna-se muito mais eficiente. Ao associarmos os novos conhecimentos ao treino do raciocínio ficamos mais inteligentes. E isso é algo que ninguém pode desprezar, não acham?

Bem, preparem-se psicologicamente. A atitute que adoptarem nos primeiros dias de aulas vai ser muito importante. Entrem com confiança no ano lectivo, organizem o vosso material, participem desde o primeiro dia e, mais importante ainda, não comecem a adiar as coisas. O que eu quero dizer é que, habituados ao tempo das férias, perdemos o ritmo e agora vai custar um bocado a acertar o passo com os horários, as primeiras aulas, etc. Por isso, façam um esforço para se manterem atentos, tomem as vossas notas e não deixem de rever as matérias e de começar a estudar mal os professores acrescentem assuntos novos. É que, se assim não for, começam a atrasar tudo e depois fica difícil a recuperação. Não se esqueçam que a qualidade do vosso desempenho nas primeiras semanas pode ser decisiva para o resto do ano!

HORA DO CORREIO

Desde que este blogue foi divulgado, nomeadamente na imprensa, recebi inúmeros emails com sugestões e perguntas.
Destas seleccionei algumas que passo a responder.

Problemas de concentração

- Tenho um filho com 9 anos (António) que é muito desatento na sala de aula. A professora queixa-se que ele distrai-se com qualquer coisa. Que posso fazer?"
Maria Antónia, Funchal.

- Infelizmente, a falta de atenção na sala de aula é um problema que atinge inúmeros alunos. São muito os factores que podem concorrer para isso. Temos de pensar que as turmas, em geral, são muito grandes (ultrapassando, por vezes, os 20 alunos por sala) e isso não só dificulta o trabalho do professor como a concentração daqueles que estão verdadeiramente interessados em aprender. As aulas também são longas, o que piora as coisas.
Na maior parte dos casos de desatenção constante, o problema tem origem na falta de interesse suficiente por parte do aluno. Não havendo envolvimento afectivo com as aprendizagens, os alunos não têm motivação.
Promover a motivação tornando as matérias apetecíveis depende do professor, do seu estilo de ensinar, das suas estratégias, dos materiais que utilizar e do seu próprio interesse. Um professor apaixonado pela sua área de ensino pode ser muito mais eficaz (e competente, por conseguinte) do que um professor que apenas "despeja" a matéria, cumpre a agenda do dia e vai-se embora.
É evidente que também não podemos ignorar que a falta de atenção também pode ser provocada por outro tipo de problemas. Por exemplo, os alunos com hiperactividade sofrem de défice de atenção. Os alunos com problemas familiares e emocionais também podem andar longos períodos com falta de concentração nas aulas.
O António é também distraído noutras situações fora das aulas? Ou é só nas aulas? A sua resposta eliminará uma série de hipóteses e é meio caminho andado para a solução do problema. Faça um estudo...atento do caso e procure ajuda especializada, se necessário.

É possível ter-se medo de aprender?

- "Tenho a impressão que o meu filho tem medo de aprender. Acho isso muito estranho mas já ouvi dizer que isso acontece com algumas crianças pequenas. É verdade?"
Rosália Silva, Braga.

- É verdade. O tema tem sido objecto de estudo por vários especialistas. Eles descobriram que o medo de aprender pode ter distintas explicações que variam de caso para caso.
Em geral, afecta crianças pequenas numa percentagem que, embora reduzida, não deve ser desprezada. Muitas crianças que manifestam medo de ir às aulas ou grande desmotivação em aprender têm, na verdade, medo de aprender. Parece estranho que se tenha medo de aprender mas compreende-se se observarmos o "porquê" desse receio.
Uma das principais causas resulta da sensação de fracasso escolar que uma criança experimente nos seus primeiros contactos com as aulas. Se ela se sentir impotente para compreender o que, afinal, esperam dela na escola, se ela for recriminada por estar a ter dificuldades nas primeiras aprendizagens ou se se sentir desamparada e "sozinha" com os seus problemas é altamente provável que desenvolva o tal medo de aprender. E porquê? Porque quanto mais matérias novas ela for aprendendo mais fica exposta e isso aumenta a sua sensação de vulnerabilidade. Então o "aprender" torna-se - para a criança - numa aventura carregada de angústias. A única saída que ela vê é "fugir" desse pesadelo, o que a faz entrar em desespero (com toda a panóplia de problemas psicossomáticos como a enurese nocturna, a perda apetite para comer, o aparecimento súbito de outros medos, a instalação de fobias, etc.).
É evidente que o medo de aprender pode ser devido ao seu modo de funcionamento psíquico, o qual pode, por alguma razão, estar perturbado ou desorganizado. Experiências traumáticas precoces e sofrimento emocional continuado (perda de um dos pais, divórcio dos pais, castigos, etc) concorrem para provocar o medo de aprender, de andar na escola e até, por vezes, o medo de viver.
Quando os problemas são simples, uma mudança de atitude por parte do professor e dos pais pode ajudar a ultrapassá-los. Mas se as coisas se apresentarem difíceis, então deve-se procurar, urgentemente, ajuda especializada.


Uma falha da memória?

- "Sempre tive dificuldades de aprendizagem. Custa-me memorizar as matérias e quando o consigo, é frequente esquecer-me, sobretudo nos testes. Será que sofro de algum problema no cérebro?"
Júlio S. Jardim, Castelo Branco (14 anos).

- Acho que não tens nenhum problema no cérebro pois, por tudo o resto que me contaste no teu email, a impressão com que fico é de que neurologicamente estás bem.
Vamos lá pensar. Dizes que sempre foste uma aluno sofrível, sem muito interesse pela escola. Ora bem, quando não há interesse é difícil a gente agarrar-se às coisas. Mas isso também pode ter uma outra explicação: falta de organização e método.
Não se pode esperar ter êxito quando só se estuda quando nos apetece (e isso pode acontecer poucas vezes). Júlio, o que queres ser na vida? Contaste-me que gostas de aviões. Talvez queiras vir a trabalhar no mundo da aviação. Admitamos isso como uma hipótese. Ora bem, para te tornares num técnico (piloto, navegador, mecânico ou engenheiro aeronáutico, por exemplo) terás de preparar um percurso, uma trajectória de vida. Ou seja, tens um projecto, precisas de um plano de execução. Não é assim? Tens de aprender o que te ensinam na escola para poderes ir avançando de ano e chegares a uma escola superior ou a um curso técnico-profissional especializado.
Então o aprender é um meio, não um fim em si-mesmo. Os livros são as ferramentas e os professores são os orientadores.
Precisas, de seguida, de organizar-te. Tens de estabelecer regras e uma agenda de trabalho. Estudar resulta mais fácil quando temos as coisas planificadas. Se estiver tudo muito caótico, perdes a vontade de te esforçar.
Às vezes eu costumo dizer que, quando não se gosta muito de estudar, devemos estabelecer uma ideia do tipo de futuro que queremos para nós. Isso costuma ajudar-nos a ganhar motivação, sobretudo para enfrentar as matérias que menos nos agradam.
Estudar é uma forma intencional de se aprender. Estudar não é só ler os manuais. É também ouvir os professores, conversar com eles, pesquisar, etc. Nem toda a gente sabe estudar e por causa disso fracassa-se com muita frequência.
Neste site vou apresentar brevemente dicas para se aprender com mais facilidade e motivação. Isso será útil para ti. Vai visitando esta página regularmente.


Hiperactividade ou não?

- "A professora diz que o meu filho é hiperactivo e não pára um segundo na sala de aula. Todavia, é um aluno com um aproveitamento médio e em casa não acho que seja tão hiperactivo como a professora faz crer. Que devo fazer?"
Ermelinda Gomes da Silva (Guimarães)

- Nos últimos tempos tem-se ouvido falar muito das crianças hiperactivas e qualquer uma que tenha um comportamento mais irrequieto do que os colegas é facilmente rotulada como hiperactiva.
A hiperactividade infantil atinge, todavia, apenas uma percentagem de 3 a 5% das crianças com menos de 10 anos de idade (geralmente rapazes). O que quer dizer que a maioria das crianças irrequietas não são obrigatoriamente hiperactivas.
Os professores desejariam ter alunos pacientes, sossegados e bem comportados. Mas isso é difícil de conseguir e a maioria das crianças saudáveis são simplesmente muito activas e mexidas.
Não obstante, comparada com outras perturbações, a hiperactividade infantil é a mais vulgar. E não é um problema dos nossos dias pois foi pela primeira vez descrita há cerca de 150 anos.
Costumo dizer aos pais de uma criança supostamente hiperactiva que uma forma de se verificar que a perturbação está instalada é observar o comportamento dela não apenas num determinado lugar e situação mas igualmente noutros locais e ambientes.
Há crianças muito irrequietas em casa e que na escola se comportam relativamente bem e o contrário também ocorre. Esquecemo-nos frequentemente que o stress também afecta as crianças de todas as idades. Imagine-se uma sala de aula onde existem 20, 25 ou 30 alunos (situação frequente por esse país fora) e um professor. Raros são os casos em que o barulho, as conversas e as distrações não façam parte do ambiente da sala gerando um grande stress, nomeadamente no próprio professor.
A hiperactividade não pode também ser confundida com maus comportamentos ou comportamentos desajustados às situações. Há crianças desordeiras, há crianças muito desobedientes, há crianças desinteressadas do que se passa na aula , há crianças com perturbações afectivas e desassossegadas que aos olhos de um leigo pode ser vista como hiperactiva.
A principal perturbação das hiperactivas é o défice de atenção e não o excesso de movimentos ainda que a sua actividade motora se revele incessante e sem nenhuma finalidade. O seu comportamento é, em regra, totalmente imprevisível ou inapropriado para o local ou a situação em que esteja inserida.
Um médico especialista ou um psicólogo pode esclarecer as dúvidas já que existem critérios rigorosos de diagnóstico que determinam os sinais que devem estar presentes quando se está perante um caso de hiperactividade.
Por outro lado convem dizer que nem todas as crianças hiperactivas manifestam todas as características consideradas típicas da perturbação. Diferem de umas para outras embora alguns sinais "devam" estar presentes.
Vejamos a lista de características das crianças hiperactivas segundo dois especialistas: os doutores Aquilino Polaino-Lorente (doutor em Medicina e catedrático na Universidade Complutense de Madrid) e Cármen Ávila (doutora em Ciências da Educação formada naquela mesma universidade), autores do livro Como viver com uma criança hiperactiva (Edições Asa, 2004):
- têm problemas para se concentrarem numa tarefa durante longos períodos de tempo;
- distraem-se com facilidade;
- têm problemas para seguirem as directrizes que lhes sugerem;
- não terminam as actividades que começam;
- actuam antes de pensar;
- necessitam de mais controlo do que as outras crianças;
- perturbam as aulas;
- nas brincadeiras não são capazes de esperar pela sua vez;
- passam de uma actividade para outra sem concluirem nenhuma;
- perdem facilmente coisas;
- respondem às perguntas antes destas terem sido concluídas;
- lutam por tudo e por nada;
- não medem o perigo do que fazem;
- são inoportunas quando estão em grupo;
- esquecem-se do que têm de fazer (não prestam a devida atenção);
- falam excessivamente;
- são desordenadas e desorganizadas.
Ora bem, aqui chegados tenho de alertar para o facto de também existirem crianças que, não sendo hiperactivas, sofrem de défice de atenção. Geralmente revelam-se passivas e não sabem defender-se das agressões dos outros, são do tipo "cabeça no ar", frequentemente são inibidas e distraem-se facilmente. O seu problema é o défice de atenção. Diz-se então que sofrem de "défice de atenção indiferenciado".

(Agradeço aos pais e professores que tiveram a amabilidade de se congratularem com a existência deste espaço. Aproveito para anunciar dois outros espaços na internet que completam este APRENDER É FÁCIL. São eles SOBREDOTAÇÃO & TALENTO em www.mentessobredotadas.blogspot.com e NEUROFITNESS que pode ser visto em www.neurofitness.blogspot.com).