segunda-feira, outubro 17, 2005


MEMORIZAR: UM PROCESSO SIMPLES

Não é totalmente errado afirmar-se que memória e inteligência são essencialmente a mesma coisa. Isto porque a função intelectual só é possível a partir das informações que temos registradas na memória. Ninguém consegue pensar sobre o que não sabe, no entanto, consegue pensar muito bem se tiver "armazenadas" boas informações a respeito do assunto.

Importante: raciocinar nada mais é do que "comparar informações que temos na memória". Assim sendo, pode-se afirmar com segurança que todo raciocínio é uma comparação, seja ela entre dados isolados, conceitos, procedimentos etc.

Todos nós sabemos, entretanto, que é tão fundamental "aprender" quanto "lembrar" daquilo que se aprendeu. Sem "lembrar" das coisas que estudamos, toda esta aprendizagem perde o seu valor prático e não nos serve para nada.

Para facilitar essa "lembrança", todavia, existem diversas técnicas agrupadas numa ciência bastante interessante chamada Mnemotécnica (ou Menmônica) que já era praticada pelos antigos gregos, pelos fenícios, árabes etc.

O que a ciência moderna fez foi, simplesmente, recuperar e adapatar tais técnicas para a nossa realidade cultural. Só a título de curiosidade, vale lembrar que antes da invenção do primeiro alfabeto linear (por volta de 1.700 a.C., pelos fenícios) todo o processo de transferência da informação era basicamente oral e, para tanto, esses povos precisaram desenvolver técnicas eficazes de memorização de forma a assegurar a sua unidade política, social e religiosa.

O princípio das técnicas mnemônicas consiste basicamente em estabelecer associações criativas entre as informações a serem memorizadas. Assim, quanto mais associações são criadas, mais fácil será a lembrança da informação aprendida. Veja: quando aprendemos o que é uma laranja, registamos na memória diversos outros detalhes como: que a laranja tem formato arrendondado, que é rica em vitamina C, que serve para fazer sumos etc.

Assim, quando queremos lembrar de frutas que servem para fazer sumo, lembramos também da laranja. Quando queremos lembrar de frutas que tenham formato arredondado, outra vez lembramos da laranja. Quanto mais associações, melhor! A nossa memória tem uma dificuldade muito grande para registar dados isolados, que não estejam associados a outras informações.

Ocorre, entretanto, que se pode associar as informações a serem memorizadas de diversas formas, como por exemplo, pelas cores, pelas emoções e até pela música. A música, a rima e o ritmo permitem associações fantásticas.

Repare como as pessoas têm sérias dificuldades para decorar um texto de apenas três linhas e, no entanto, conseguem memorizar dezenas de músicas e conseguem se lembrar delas, muitas vezes, a partir de apenas uma nota. E sabe por que as pessoas conseguem memorizar mais facilmente uma música do que uma poesia? É simples: é porque a música não faz "cobranças intelectuais"; ela penetra diretamente no subconsciente, exactamente porque a pessoa está "descomprometida" com a razão enquanto ouve.

Além do mais, as músicas tem ritmo e muitas delas são rimadas. Isso estabelece uma associação bastante fácil de ser recuperada na memória.

Outro detalhe importante é a relação que há entre a memória e o sistema límbico (ou nosso segundo cérebro). Esse sistema límbico é que controla nossa sexualidade e grande parte das nossas emoções. Já reparou que nos lembramos com muita facilidade daqueles factos que tiveram grande representação emocional na nossa vida e esquecemos também com facilidade daqueles que nada representaram para a gente? Portanto, ponha sempre emoção em tudo aquilo que você quiser lembrar.
Importante: a nossa memória regista muito bem todos os factos carregados de emoção e não regista os fatos desinteressantes, banais, corriqueiros.

Uma outra dica interessante é a seguinte: para memorizar melhor, seja lá o que for, envolva todos os seus sentidos (audição, olfacto, paladar, tacto e visão) na aprendizagem.

Nós aprendemos mais e retemos melhor na memória, quanto mais sentidos envolvemos neste processo. Lembre-se que as cores, a música, o gestos, os odores, também são informações fundamentais para a aprendizagem. Portanto, saia da mesmice das anotações lineares e do estudo "silencioso". Agite! Envolva-se! Invente! Experimente!

Um outro ponto importante e que deve ser ressaltado, está expresso no seguinte princício: "a repetição é a mãe da aprendizagem". Dados ou factos que sejam emocionalmente inexpressivos, que não permitam boas associações ou que não venham "embalados" pela música, podem ser memorizados pelo método da repetição.

Lembra-se como aprendeu tabuada? Pois é assim mesmo. Quanto mais repetir uma informação (que tanto pode ser uma informação científica como um conceito moral) mais ele penetra no subconsciente. É justamente por isso que os métodos de auto-hipnose recomendam "formulações" insistentes e sistemáticas sobre alguma coisa que queiramos que seja verdade.

Repare que as pessoas amarram os cordões dos sapatos, naturalmente, "sem pensar" como deve fazê-lo, não é verdade? Pois bem, isto só é possível porque se está a "repetir" o acto de "amarrar os cordões" diversas vezes, até que esta informação se assentou de tal forma no subconsciente que a sua recuperação na memória passou a ser automática.

Dificuldades em memorizar?

Uma das afirmações mais frequentes que se ouve dos estudantes é a seguinte: "Tenho sérias dificuldades para memorizar... acho que não tenho uma boa memória."

Ora bem, desde que não haja uma história de doença grave (e isto é sempre diagnosticado antes mesmo de a memória fraquejar) nada justifica as dificuldades de memorização a não ser uma destas três causas:

1) Stresse - provocado principalmente pelo medo, pela ansiedade ou pelo excesso de cobrança;
2) Desinteresse pelo assunto em questão (que pode também ser provocado pelo antagonismo ou aversão ao professor);
3) Auto-estima baixa (que pode ter sido provocada pelo excesso de críticas ao desempenho escolar).

O mais comum, entretanto, é encontrarmos estes três factores associados entre si. A pessoa com a auto-estima em baixa stressa com facilidade e se torna ansioso, medroso ou, em algus casos, até mesmo agressivo. Problema de memória, no entanto, ele não tem nenhum. O que ele precisa é tão-somente ter sua auto-estima levantada.

Isto aumentará o poder de concentração, estimulará a capacidade de "sonhar" e a criatividade, fortalecerá a confiança e os problemas de memória desaparecerão naturalmente.

Muita gente ainda pensa que "concentrar-se no estudo" é despejar toda a sua ansiedade e toda a sua vontade no ato de aprender. Só que este é um erro fatal. A concentração óptima para a aprendizagem não é aquela em que a pessoa estimula o seu "estado de alerta" que faz aumentar os batimentos cardíacos, a tensão muscular, o ritmo respiratório.

A concentração óptima é a concentração passiva, quando a pessoa não está "preocupada em aprender", mas sim "divertir-se com o estudo", ou, numa linguagem bem jovem, "curtir o estudo".

Repare-se que quando assistimos um filme sobre História, aprendemos muito mais sobre o facto do que quando nos debruçamos sobre um livro, ansiosos, e tentamos decorar tudo.

"Aprender" é da natureza humana e memorizar é um acto intelectual tão natural que somos capazes de memorizar mesmo sem querer memorizar.

O nosso cérebro foi criado para aprender. E não somos nós que vamos interferir neste destino; nós somos capazes de aprender tudo o que nos interessa aprender e sem fazer grande esforço para isso. Aliás, fazer esforço para aprender é um contrasenso. Ninguém tem que se esforçar para aprender. Basta ficar na sua (atento, mas relaxado) e deixar o cérebro aprender sozinho. E ele é capaz de fazer isto magistralmente por nós.

Adaptado de Projecto Saber