sexta-feira, novembro 25, 2005

CIDADANIA E EDUCAÇÃO NA ESCOLA


Quase todas as escolas têm, actualmente, um projecto que prega a educação para a cidadania. Na hora de escolher a escola, inclusive, muitos pais dão importância a esse item porque acreditam que esse é um valor importante no mundo actual e apostam que a escola cumpra essa missão. Mas, pelo jeito, ou essa tal educação existe só na teoria e no papel -esta é a hipótese mais próxima da realidade- ou a escola ensina e os alunos não aprendem, ou seja, ela não sabe ensinar.

Podemos levantar essas hipóteses a partir de situações que foram notícia nos jornais nos últimos meses em que jovens e a falta de comportamento civilizado caminharam lado a lado. A última notícia, aliás, merece destaque por ter ocorrido justamente dentro de uma escola, o campus de Franca da Universidade de S.Paulo (Brasil). Sete alunos do curso de História foram punidos com expulsão em virtude do protesto que fizeram na presença do reitor contra a falta de estrutura da universidade.

Em tempos democráticos, é difícil acreditar nessa história, mas basta saber a forma como o protesto foi realizado para entender. Os alunos urinaram, defecaram e vomitaram na frente das autoridades do campus universitário. Será que eles consideraram essa uma forma criativa de protestar? É bem possível que sim. Mas o que fizeram foi um enfrentamento violento e desrespeitoso.

O que é, afinal, educar para o exercício da cidadania? Esse é um conceito bem abrangente, mas alguns princípios estão, certamente, vinculados a ele. A escola que pretende educar para a cidadania precisa, por exemplo, ensinar a conviver com justiça, respeito e solidariedade, praticar a participação democrática efectiva, ensinar o compromisso com a liberdade, dar lições a respeito da responsabilidade com os deveres e da luta pelos direitos, entre alguns outros pontos.

Além de ensinar tudo isso tendo como eixo principal o conhecimento, a escola precisa também praticar o que ensina com todos os envolvidos no processo educativo. Isso acontece? Basta um dia em qualquer escola para testemunhar o contrário. E como a escola reage? A maioria é cega ou faz vista grossa para as contradições entre sua prática e seus anseios educacionais.

Para saber qual é o projecto político-pedagógico de uma escola, por exemplo, é preciso ler o documento em que ela declara o que pretende e como entende o que significa educar para a cidadania. Isso deveria ser possível, entretanto, apenas observando um dia de vida na escola, não é verdade?

A hostilidade e a agressividade nas relações de convivência entre alunos são fruto de muitos factores. Um deles é, sem dúvida nenhuma, a educação que recebem em casa e na escola. Por isso podemos concluir que pais e professores não têm estado atentos a essa questão.

Para exercitar a cidadania é preciso saber dialogar, debater, discordar e protestar. Com firmeza e com respeito. Mas pais e professores ensinam aos mais novos que participar é dizer o que se pensa, é expressar a opinião a respeito de algum assunto sem crítica nenhuma. Aliás, os adultos ensinam isso tanto pela educação que praticam quanto pelo próprio comportamento, sempre atentamente observado pelos mais novos.

Os jovens e as crianças não sabem o que é dialogar, negociar, ceder. Os argumentos que usam nos debates são, em geral, vazios e imaturos. Os estudantes da universidade que foram expulsos discordam da punição, é claro. Sabe qual a razão que usam, segundo a reportagem, para justificar o desacordo com a medida? Consideram a decisão "exagerada" porque todos os alunos envolvidos são primários. E pensar que são universitários do curso de história que têm esse discurso...

Pais e professores precisam saber que educar para o exercício da cidadania, ou seja, ensinar aos mais novos o que torna possível a convivência no espaço público e exigir que tenham comportamentos e atitudes coerentes com o que aprendem é uma questão de sobrevivência social.

Texto de ROSELY SAYÃO, psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha). Fonte: Originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo (Brasil)