terça-feira, dezembro 27, 2005

MEMÓRIA E APRENDIZAGEM


Resumo da entrevista que concedi à jornalista Cláudia Faria, da revista SÁBADO, a 26 de Dezembro e cujo conteúdo pode interessar a alguns e professores.

Cláudia Faria - A memória é um tema muito estudado pelos investigadores portugueses?
Nelson S. Lima - A memória, porque é uma das mais importantes e indispensáveis capacidades para a vida, é um tema que tem sido abundadantemente estudado pelos neurocientistas de todo o mundo. Em Portugal, a neurociência está a dar os seus primeiros passos e muitos investigadores nacionais têm-se interessado não apenas pelo estudo da memória enquanto função central do cérebro mas também pela relação desta com as emoções, a personalidade, as doenças neurológicas, o envelhecimento, etc.

CF- Qual é o aspecto da memória que mais usamos no dia-a-dia?
NL- Usamos vários tipos de memória segundo a duração do tempo de fixação (imediata, de curto prazo e longo prazo), diferentes categorias segundo a modalidade cognitiva (memória episódica, memória semântica, etc), o tipo de função (verbal, espacial, musical, etc), os estímulos envolvidos (auditiva, visual, táctil, etc) e o nível de cognição utilizado (memória implícita ou não-consciente e memória explícita ou consciente). A memória mais central é a chamada "memória de trabalho" ou "operacional" que usamos permanentemente a fim de sermos capazes de ligar os acontecimentos momento a momento e executarmos tarefas com uma percepção sólida e coerente de continuidade.

CF - É possível criar memórias de coisas que nunca aconteceram?
NL - Memorizamos ideias, intenções, projectos, imagens e interpretações de acontecimentos que nunca presenciámos ou que, em si mesmo, nunca se concretizaram. Na verdade, memorizamos pensamentos que são acontecimentos mentais.

CF - Como se consegue discernir entre uma verdadeira recordação e uma falsa memória?
NL - A verdadeira recordação de tipo fotográfico ou audiográfico não existe a 100%. O cérebro, pela forma como evoca as memórias previamente registadas, altera as recordações pelo que um mesmo conteúdo pode assumir diferentes aspectos. É o caso, típico, da memória de um acidente presenciado por alguém que estava no local. Essa pessoa vê, interpreta e fixa todo um conjunto de dados que podem ser ampliados, reforçados ou reinterpretados devido às opiniões de outras testemunhas com quem troque impressões. A memória também faz interacção com as emoções pelo que duas pessoas ouvidas em separado podem descrever um mesmo acontecimento usando diferentes perspectivas e abordando-o de ângulos igualmente não coincidentes. Por isso é que os juizes ouvem as declarações das testemunhas em busca da verdade que resulte da filtragem de todos elementos: factos, similariedades de relatos, contradições, ideias, etc.

CF - Porque é que umas pessoas têm melhor memória do que outras?
NL - Isso depende de muitos factores (biológicos, psicológicos, ambientais, etc) que entram jogo na dinâmica da memória. Há pessoas que têm melhor memória auditiva, outras visual, e por aí adiante. Mas, em geral, a memória das pessoas funciona plenamente e sem perturbações. Mas os factores que mais prejudicam a saúde da memória são o stress, a fadiga, a alimentação incorrecta e o envelhe-cimento.

CF - Quais são as melhores estratégias para recordar? Pode dará alguns exemplos práticos do dia a dia? O que é que diariamente as pessoas podem fazer para melhorar a memória?
NL - As melhores estratégias para recordar começam com uma que é prioritária: a atenção aplicada nas actividades ou nos dados que queremos mais tarde recordar. A pressa e a desatenção são inimigas da memória pelo que devemos adoptar algumas regras básicas como buscar várias fontes de informação (por exemplo, para estudar um tema é útil fazermos uma pesquisa em torno do mesmo e não apenas uma apressada leitura), utilizar vários sentidos e dispositivos gráficos (ver, ouvir, imaginar, desenhar, fotografar, etc), etc. A memória é multifocal e, por isso, o registo pode ser amplificado se soubermos aceder às várias modalidades de aprendizagem. Actualmente há actividades que podem ajudar a reforçar o desempenho cognitivo, nomeadamente o da memória. Por exemplo, os exercícios de neuróbica e de neurofitness podem ajudar na qualidade da memória (ver www.neurofitness.blogspot.com).

CF - O ambiente, os hábitos e a educação influenciam a memória?
NL - Influenciam muito. Por exemplo, os hábitos de trabalho e o sentido de organização são determinantes. O trabalho executado com um plano prévio de tarefas (por exemplo, desdobrá-lo por etapas) ajuda o cérebro a facilitar o registo das informações que lhe são dadas. Também o ser-se organizado na disposição dos elementos que queremos aprender (dar-lhes uma classificação de prioridade, objectivos, etc) reforçam a capacidade de memorização.

CF - Qual é a importância da alimentação e do sono no que concerne à memória?
NL - São factores muito importantes. A alimentação saudável é regrada e equilibrada e, por isso, fornece nutrientes vitais para a função cerebral. Se assim não for, se nos alimentarmos de forma "desonesta" e adulterada expomo-nos a doenças, à rigidez cerebral e mental e ao declínio cognitivo (o excesso de radicais livres simplesmente fere de morte as células nervosas e diminuem as capacidades mentais do pensamento e do raciocínio). Também a falta de sono prejudica a memória: não apenas porque reduz a capacidade atenção como também complica todo o esforço metabólico ligado à fixação de memórias que a nível celular o cérebro necessita realizar durante as horas em que dormimos).

CF - Qual é a melhor hora do dia para memorizar coisas?
NL - Depende das pessoas. Geralmente, os introvertidos parecem fixar melhor durante a manhã enquanto que as pessoas extrovertidas memorizam melhor à tarde e ao fim do dia. De facto, a natureza da personalidade parece ter uma palavra a dizer visto que ela tem como alicerces determinadas estruturas biológicas que também estão implicadas na memória e noutras actividades cognitivas.

CF - Deve-se estudar na véspera de um exame?
NL - Talvez as pessoas precisem de estudar nas vésperas de um exame por diferentes razões: umas porque querem reforçar e consolidar o que já sabem, outras porque se sentem mais seguras, enfim, outras porque acreditam que assim é melhor e ficam mais tranquilas. Mas o ideal é mesmo fazer-se uma aprendizagem gradual (diz-se significativa) que dê tempo à consolidação dos conhecimentos. Estudar de véspera pode gerar ansiedade suficiente para bloquear a memória. Isso acontece com 20 a 30% dos alunos das nossas escolas.

CF - Tudo o que vivemos fica gravado em algum lugar da nossa memória?
NL - Parece que sim. Estima-se que o cérebro de uma pessoa culta de 80 anos pode ter armazenada informação suficiente para que encher 30 milhões de livros de 500 páginas e que se distribui por diferentes categorias de memória: autobiográfica, semântica e procedimental. O que acontece é que a grande maioria da informação está indisponível quer no subconsciente quer no inconsciente das pessoas a fim de libertar a mente daquilo que seria um pesadelo se estivessem impedidas de esquecer.

CF - O que é um dejá vu?
NL - É um sentimento de revivescência de algo passado e não de uma recordação. Resulta de coincidências de natureza subjectiva presentes num determinado momento e que captamos de forma emocional.

CF - O que é a amnésia?
NL - Significa falha ou perda de memória. Em certos casos patológicos pode assumir formas e graus de gravidade diversas. Existem também as alterações qualitativas da memória (paramnésias) e também os chamados "transtornos do reconhecimento". São diferentes patologias e cuja repercussão na qualidade de vida varia de caso para caso.

CF - Porque é que retemos umas memórias e não outras?
NL - Geralmente retemos e lembramo-nos depois melhor aquelas memórias que nos marcam emocionalmente ou que foram significativamente importantes para nós.

CF - Sem a memória não poderíamos aprender e por consequência evoluir enquanto espécie. Qual é a verdadeira importância que a memória tem para o ser humano?
NL - A nível individual ela permite-nos construir o nosso eu a partir da elaboração mental da nossa própria história de vida dando-nos um sentido de existência e de coerência entre as diferentes vivências quotidianas. A nível colectivo ajuda-nos a desenvolver o sentido social e de pertença que une todos os membros da comunidade e da propria espécie.

CF - Conseguimos compreender de facto como funciona o cérebro ao nível da memória?
NL - Embora nem todos os fenómenos estejam totalmente descodificados o funcionamento da memória está bem com-preendido hoje em dia.

CF - Quais foram as últimas descobertas cientificas sobre a memória?
NL - Houve várias. Destaco principalmente as que se têm debruçado sobre a relação entre as emoções e a memória, as que estudam os processos degenerativos que podem afectar a memória devido ao abuso de drogas, álcool e tabaco, stress, ao envelhecimento, a lesões no cérebro e a doenças severas (caso da depressão, Alzheimer, etc.).

quarta-feira, dezembro 14, 2005

POR UM NOVO SISTEMA DE ENSINO


Segundo uma notícia veiculada pelo site da RTP, o Instituto da Inteligência propôs (hoje) a substituição do actual modelo de ensino nas escolas, "oriundo da sociedade industrial", por um que se adapte à sociedade moderna, "menos dependente dos manuais e mais aberto à interacção".
Em comunicado, aquela instituição privada, com sede no Porto, considera que essa alteração "deverá provocar sobretudo uma mudança significativa nos conteúdos de aprendizagem do primeiro ciclo", para desenvolver nas crianças competências como a promoção do espírito de curiosidade, a criatividade exploratória e a capacidade de pensar.
Baseado em estudos sobre as relações memória-inteligência, o instituto preconiza a "formação de professores em métodos de ensino compatíveis com o cérebro, que lhes permita ajustar o discurso e as formas de comunicação às diferenças individuais presentes em cada sala de aula".
Isso permitirá, conclui, "promover a capacidade de pensar de cada aluno e a exploração do espírito de curiosidade, ao invés de apelar à sua capacidade de memorização e à escravização do pensamento, moldando-o às verdades absolutas".
"A aprendizagem por memorização pode ser rápida e superficial, pode ser suficiente para a realização de testes e exames dos alunos que não sejam bloqueados pelo stress ou por factores de ansiedade. Extingue-se, porém, muito rapidamente e restará um vazio que não tem, objectivamente, qualquer utilidade para aprendizagens futuras", afirma o Instituto da Inteligência.
Fonte: RTP referindo noticia da Agência LUSA, dia 14-12-2005.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

PARECEM HIPERACTIVOS

O seu comportamento confunde-nos. Revelam-se agitadas, intranquilas, enfim, hiperactivas. Mas, serão mesmo hiperactivas? Estou a falar de crianças que vivem situações que lhes provocam muioto stress, nervosismo, desassossego, desatenção nas aulas, comportamentos rebeldes. Hoje em dia, a tentação de lhes chamar hiperactivas é muito grande.

A maioria das vezes esta situação é pontual e afecta todas as crianças com maior ou menor gravidade e frequência. Outras vezes, o problema instala-se e tende a manter-se por longos meses, deixando os pais e os professores preocupados. A criança, que antes se revelara estável, é agora uma pessoa intranquila.

Entre outros talvez possam coexistir alguns destes sinais: dificuldade em adormecer, agitação nocturna, alterações no apetite, problemas de concentração, enurese nocturna (eventualmente ecoprese), medos, etc, etc.

Num estudo que realizei nos últimos anos com crianças que manifestavam aqueles (e outros sinais de intranquilidade e agitação) percebi que em todos os casos havia uma relação directa com o ambiente familiar ou tinham ocorrido mudanças e acontecimentos novos nas suas vidas (em muitos casos coexistiam vários problemas). Seleccionei os mais frequentes:

- pais com profissões altamente exigentes e stressantes;
- pais com pouca disponibilidade para dar atenção e dialogar com os filhos;
- pais com mau relacionamento entre si e problemas conjugais diversos;
- pais separados/divorciados;
- perturbação de natureza psicológica e comportamental num dos pais (transtorno de humor,
problema de personalidade, alcoolismo, etc);
- dificuldades de adaptação na escola;
- excesso de TPC (trabalhos escolares);
- excesso de tempo dedicado a brinquedos electrónicos, especialmente jogos;
- excesso de tempo em casa sem possibilidades de brincar no exterior;
- excesso de tempo na escola e em actividades escolares;
- poucos amigos fora do espaço da escola;
- problemas de solidão e sofrimento psicológico não resolvidos;
- medos e perturbações de ansiedade (baixa auto-estima, insegurança, etc)
- dificuldade em lidar com eventuais problemas de aprendizagem;
- aprendizagem deficiente de regras de comportamento;
- excesso de paternalismo e superprotecção;
- regimes alimentares incorrectos.

Convido-o a ler sobre cada uma destas causas num outro blog onde desenvolvo o tema num artigo com o título "A CRIANÇA INTRANQUILA". Clique aqui: www.hiperactividade.blog.com .

Nelson Lima, neuropsicólogo.