quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Aprender a pensar!



Semanalmente, quatro turmas do Centro Social Padres Redentoristas e Jardim Escola João de Deus, em Castelo Branco, e ainda do Patronato de Nossa Senhora da Conceição, na Covilhã – conhecido como Colégio das Freiras – sentam-se nas salas de aula e, mesmo sem nunca terem ouvido falar de Platão ou Sócrates, discutem temas filosóficos, embora sem empregarem termos como "lógica", "ética" ou "estética".

Cerca de 80 crianças assistiram a aulas experimentais, cujas gravações em vídeo vão ser enviadas ao Ministério da Educação para propor o alargamento do ensino da Filosofia. As professoras envolvidas no projecto querem desenvolver o sentido crítico dos mais novos.

A professora pergunta o porquê de estarem sentados em círculo, no chão, virados uns para os outros. “É para falarmos olhos nos olhos”, respondem em coro algumas das 25 crianças de cinco anos, que participam na experiência “Filosofia para Crianças”, desenvolvida pelo núcleo da Beira Interior da Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético Filosófico (APAEF). É um núcleo constituído pelas professoras de Filosofia Ana Monteiro, Carla Silva e Ana Domingues.

Foi assim o início da primeira aula, ministrada a 6 de Fevereiro, tendo como tema a Identidade. Durante o mês de Fevereiro, as 80 crianças envolvidas no projecto exploraram ainda o Bem e o Mal e a Responsabilidade. Nas próximas semanas, à medida dos mais pequenos, serão explorados valores como a Liberdade, Honestidade, Humildade e o Amor. “Porque temos de nos apresentar?”, pergunta a professora Ana Monteiro, com a ajuda do fantoche Tomás. Depois questiona o que é “apresentar”. E de pergunta em pergunta pretende-se que crianças de tenra idade se tornem “amigas do saber”.

Se fosses uma cor qual gostarias de ser?”, começa a professora com a ajuda do Tomás – um boneco que anima as sessões para prender a atenção das crianças. “Verde”, ouve-se na sala. “Verde porque gostava de ser uma alface. A salada faz bem”, responde Tomás. Com cinco anos, o boneco vive numa casa branca com muitas árvores em volta. Do outro lado da estrada, numa casa maior, vive a avó de cabelos brancos. Na sua casa vive com o pai, a mãe e um irmão, “pequenino e bonito, mas só dorme e chora. Não brinca nada comigo”, lamenta, anunciando o seu maior prazer: devorar chupa-chupas. “Gostava que o meu quarto estivesse cheio deles, mas a minha mãe esconde os chupa-chupas num armário muito alto, onde só ela chega”, conta Tomás, contrariado. “Quando for grande quero ser médico de cães” para tratar de todos os “jolies”, iguais ao que tem no seu jardim. É a partir da apresentação do Tomás que toda a aula se desenvolve. Feitas as apresentações, um a um, e suscitada a discussão, as crianças escrevem a primeira letra do seu nome numa cartolina, sendo depois convidadas a imitar outro colega à escolha e, mais tarde, no fim da aula, a fazerem um desenho de si próprios.

Gravadas em vídeo, as aulas servirão de suporte à “Conferência Internacional de Filosofia para Crianças”, a realizar na Universidade da Beira Interior, no dia 8 de Maio. Para assistir a esta iniciativa foi convidada a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. Do encontro, que reunirá especialistas nacionais e internacionais, “resultará um projecto a apresentar ao Ministério da Educação, sob a forma de proposta curricular que atravesse todos os graus de ensino”, afirma Ana Monteiro, coordenadora da conferência.

Ao invés do que acontece com as disciplinas de Inglês, Educação Física e Informática, disciplinas opcionais nas escolas do ensino básico, a APAEF (Associação Portuguesa para o Aconselhamento Ético e Filosófico) vai propor ao Ministério da Educação que a Filosofia se torne numa “disciplina curricular, mas sem avaliação quantitativa, a partir do próximo ano lectivo”.

A necessidade da Filosofia para crianças “surge pelo peso excessivo que o sistema educativo dá aos conhecimentos teóricos face às atitudes e valores. Exige resultados aos alunos e preocupa-se pouco em moldar o seu carácter e em torná-los futuros cidadãos, com consciência crítica”. “A criança pode não possuir a racionalidade de um adulto, mas tem qualidades para o exercício da filosofia”, tais como “a curiosidade, o espanto e a admiração”.

A Filosofia impõe-se no sentido de fortalecer, desenvolver e articular potencialidades que já existem na crianças. Em Portugal, a experiência é recente, mas, segundo a APAEF, “é uma realidade em franco desenvolvimento” há 18 anos. O pioneiro da disciplina é o filósofo norte-americano Matthew Lipman, que se dedica ao assunto desde o final da década de 60. Elaborou o método e o material didáctico, assim como e uma proposta educacional. Hoje o método é adoptado em mais de 30 países. Lipman partiu do princípio de que a participação das crianças em investigações filosóficas, realizadas em grupo, desenvolve-lhes o potencial cognitivo. A partir da leitura de textos, os alunos são incentivados pelos professores a levantar temas para a discussão. As questões suscitadas estão relacionadas com situações e problemas do quotidiano, para que as crianças se interessem por elas, ou, nas palavras de Lipman, para que “se apropriem delas”. Os professores promovem e facilitam as discussões entre os alunos, para que temas complexos e esquecidos entre os adultos ganhem simplicidade nos debates entre as crianças.

Fonte: Jornal XXI

Nota - Recordamos que o Instituto da Inteligência também realiza cursos de Filosofia para Crianças, o mais recente dos quais decorreu em Lisboa, nos finais de 2005. Estão previstos outros no próximo Verão.