terça-feira, maio 09, 2006

Entrevista à RCI (revista de professores)


Chama-se RCI e é a revista do Sindicato dos Professores da Região Centro. Numa entrevista conduzida por Luis Lobo, respondi a várias questões sobre a educação e insucesso escolar. Eis o texto integral da mesma.
"A entrevista que publicamos, poderá não obter o consenso e por isso suscitar polémica. No entanto, muitas das suas posições vão ao encontro do diagnóstico que o SPRC e a FENPROF fazem da situação actual no sistema educativo português, quer no subsistema público, quer no privado.
O RCI reforça os alertas lançados por Nelson Lima em relação à forma como se está a conduzir os destinos da educação no que concerne ao exercício da profissão docente e às consequências que daí advêm para a saúde mental e física destes profissionais, ao mesmo tempo que salienta o facto de Portugal estar a tratar mal as gerações do futuro.
RCI - Segundo dados do Instituto de Inteligência, que divulgou recentemente, existe um número elevado de crianças e de jovens que apresentam dificuldades de aprendizagem. Sem querer antecipar os resultados do rastreio que está em curso, quais são os principais motivos dessas dificuldades que se reflectem, depois nos resultados do sucesso escolar e educativo?
Nelson Lima - Conhecem-se actualmente cerca de 100 factores que podem estar directamente implicados no aparecimento de dificuldades de aprendizagem. As causas podem ser muito diversas: problemas relacionados com disfunções cerebrais ligeiras (ex: hiperactividade, dislexia, perturbações perceptivas, etc), problemas emocionais e de comportamento (ansiedade generalizada, carências afectivas, etc), problemas familiares (pobreza, privação cultural, etc), problemas derivados do próprio ensino (turmas excessivas, programas demasiado densos, excesso de ocupações escolares e outras, etc).
RCI - Também em entrevista recente a uma estação de rádio referia que existem condições objectivas da organização das turmas que levam a que a gestão dos picos de atenção de cada aluno, considerados individualmente, é muito difícil, por parte do professor. Importa-se de explicar melhor esta questão?
Nelson Lima - Considero o actual modelo de escola totalmente esgotado e inadequado à realidade da sociedade moderna. O modelo é muito clássico, pesado, excessivamente burocratizado, denso e fazendo apelo à memorização apressada.
As mais de 3 mil crianças que estudei nestes últimos anos levaram-me a concluir que a escola é responsável por grande parte do insucesso escolar (a isto chama-se pedogenia). Também os professores – que muito respeito - têm, na maioria dos casos, pouquíssima formação pedagógica e parcos conhecimentos sobre como as crianças aprendem, nomeadamente sobre os estilos de aprendizagem, os estilos de processamento da informação cognitiva de cada aluno, os tipos de alunos (sobredotados, hiperactivos, indigo, etc) etc. Descurando a realidade cognitiva e psicológica de cada aluno e obrigando todos a pensar e a aprender da mesma maneira, a escola está a transformar-se num “big brother” com muitos maus resultados.
RCI - Em que medida é que a conjugação das dificuldades de aprendizagem com a inadequada organização das turmas determina situações de cansaço dos professores (burn-out), afastando-os, por vezes, longos períodos da actividade lectiva?
Nelson Lima - O sistema de ensino complicou-se com a sua massificação. A rede escolar cresceu desmesuradamente nas últimas décadas e envelheceu. As turmas são por vezes enormes e com programas excessivamente longos e complexos. Os professores têm de conviver com diferentes tipos de atitudes, competências e comportamentos por parte dos alunos. A gestão das aulas tem-se tornado numa tarefa cada vez mais exigente. Enfim, com tudo isto, não é de admirar que cerca de 10% (dez por cento!) dos professores portugueses sofram de “burn-out” - uma forma de esgotamento muito grave que obriga a dois anos de recuperação e, muitas vezes, com sequelas que se prolongam por toda a vida.
RCI - E esse afastamento forçado da actividade não será também factor de frustação e de rejeição dos professores em relação à escola?
Nelson Lima - A actividade de professor é das intelectualmente mais esgotantes e exigentes. Está no topo das carreiras mais estressantes em todo o Mundo. Um professor competente tem um envolvimento não apenas académico, mas também emocional com os seus alunos, que tanto pode ser gratificante como decepcionante. Alegrias e tristezas convivem lado a lado na sua relação com a função de ensinar e apoiar.
Juntando a tudo isto o facto de também terem uma vida privada, nem sempre fácil nem tranquila, compreende-se que ao longo da carreira sofram diversas moléstias. Hoje em dia, os professores são presas fáceis não só do “stress” como também da ansiedade e da depressão.
RCI - Em que medida podem os atrasos nas colocações de professores e a ansiedade pela instabilidade que geram, muito superiores ao que já se previa em Agosto, determinar situações de burn-out entre os docentes?
Nelson Lima - Nos muitos testemunhos de professores que assisti ao longo das várias semanas em que duraram os atrasos nas colocações de professores percebi uma série de feridas que durarão o seu tempo a sarar, nomeadamente as provocadas pelo desespero, a insegurança, o medo, a angústia e a raiva. As estruturas emocionais de milhares de professores foram postas à prova. Não sendo factores que conduzam directamente para situações irreversíveis de “burn-out” podem ter fragilizado, porém, a sua capacidade de reacção ao “stress” a que agora estão sujeitos nas salas de aula. Assim, não ficarei surpreendido se, dentro de alguns meses, a percentagem de portadores de “burn-out” (esgotamento) subir em flecha.
RCI - “Professor, Profissão de risco” Ou “Professor, uma Profissão com futuro”?
Nelson Lima - As duas perguntas merecem um “sim”, sem qualquer hesitação da minha parte. Mantendo-se o actual modelo de ensino continuará a ser uma profissão de elevado risco. Por outro lado, e acreditando que algo terá de mudar rapidamente, será, mais do que nunca, uma profissão de futuro. Numa sociedade dita da informação e do conhecimento, o papel do professor mudará de forma notável tornando-se, cada vez mais, num agente que, mais do que transmitir conhecimentos, ajudará os alunos a saberem pensar, raciocinar, a serem criativos e a desenvolverem a sua inteligência.
RCI - Se é possível inferir, da análise que é feita, sugestões para uma nova organização das turmas e dos tempos lectivos, quais aquelas que entende que poderiam ser tomadas no plano imediato?
Nelson Lima - Sou um adepto convicto do modelo “essencialista” de ensino, criado pelo pedagogo americano Theodore Sizer. Neste modelo pedagógico, os alunos não são empurrados para a memorização de matérias, mas para a utilização plena das suas mentes e o desenvolvimento das competências intelectuais. Milhares de escolas, nos Estados Unidos, seguem já o “essencialismo”. O ensino é personalizado devido ao facto de as turmas serem pequenas. Os professores têm uma responsabilidade directa por apenas 80 alunos. Há menos disciplinas mas mais profundidade nos temas. As aulas estão organizadas em blocos de 2 horas e são interdisciplinares facilitando a pesquisa, o trabalho de grupo e a elaboração de projectos. Insistir no modelo clássico que temos em Portugal é aumentar o insucesso escolar de ano para ano. Não tenhamos ilusões.
RCI - Sendo a formação de professores uma necessidade profissional permanente, é possível determinar quais as opções de formação que deveriam ser tomadas com vista a obstar aos problemas determinados ao nível das dificuldades de aprendizagem?
Nelson Lima - No que concerne às dificuldades de aprendizagem seria muito útil aos professores saberem mais sobre estilos de aprendizagem, estilos cognitivos, inteligência multifocal, etc., por forma a saberem lidar melhor com os diferentes desafios que cada aluno, pela natureza única da sua individualidade, levanta aos professores.
Um exemplo: os alunos introvertidos, por razões de ordem biológica, aprendem melhor de manhã do que de tarde; os extrovertidos estão mais desatentos de manhã.
Outro exemplo: os alunos sobredotados. Há 8 tipos diferentes de sobredotação e seria muito útil aos professores saberem como se comportam intelectualmente os diferentes tipos. Outro exemplo tem a ver com os comportamentos em sala de aula. Há 16 tipos diferentes de comportamentos por parte dos alunos dos quais alguns são dificílimos de gerir e controlar no actual sistema de ensino".