terça-feira, julho 25, 2006

Por que há tanto insucesso escolar?

Insucesso escolar mascara frequentemente a incapacidade do sistema para atender à natureza específica de cada aluno

Aprender é a actividade que o cérebro sabe fazer melhor. É, na verdade, uma condição de sobrevivência na vida animal e, obviamente, entre os humanos. Então porque parece tão difícil aprender na escola?
Com efeito, o insucesso escolar em Portugal, sendo um dos mais elevados do mundo ocidental, parece sugerir que um elevado número de alunos tem dificuldades de aprendizagem.

Antigamente, associava-se o insucesso escolar à falta de capacidades intelectuais e a uma fraca inteligência. Felizmente, nos dias de hoje, esta visão redutora começa a dar lugar a uma compreensão mais aberta e lúcida sobre os problemas que o fenómeno envolve.

De acordo com os vários estudos que o Instituto da Inteligência tem desenvolvido nos últimos 8 anos, a maioria dos alunos com insucesso académico revela o mesmo potencial de aprendizagem que os demais sendo a sua inteligência considerada normal e, muitas vezes, acima da média.

Então, por que há tanto insucesso escolar? Os números variam de fonte para fonte mas estima-se que este problema social afecte entre 20% e 40% dos alunos do 1º ao 3º ciclo. Destes apenas 5% e 15% revelam alguma forma de incapacidade devida a pequenos défices e transtornos neurológicos como é o caso da dificuldade de concentração e da dislexia. As razões para o insucesso são, de facto, as mais diversas mas geralmente tende-se a "culpar" o aluno das suas dificuldades. Esta visão é redutora e impede a procura de soluções inteligentes.

Um dos graves problemas que afectam o sistema de ensino é a sua incapacidade para compreender a diversidade de factores pessoais que estão implicados nas aprendizagens. Apesar dos professores reconhecerem que cada aluno apresenta-se na escola com um conjunto de características únicas que influenciam o seu percurso académico (temperamento, carácter, inteligência, estilo cognitivo, educação, objectivos, emocionalidade, comportamento, etc.) há, por parte da escola, uma enorme dificuldade em responder aos diferentes "estilos de pessoas" que enchem as salas de aula.

Se é um facto que, sendo monolítico por natureza, o sistema de ensino espera que cada aluno seja capaz de se esforçar e adaptar às exigências académicas, também não é menos verdade que a escola, enquanto instituição, deve criar condições para que cada aluno retire o máximo do seu potencial de aprendizagem sem as restrições impostas pela falta de motivação, de interesse e de objectivos de crescimento pessoal.

O sistema está excessivamente burocratizado e prejudicado por uma número impressionante de carências, atrasos e erros estruturais. Por outro lado, o modelo vigente de ensino, arquitectado há centenas de anos, mostra-se cada vez mais obsoleto e limitado na sua capacidade de resposta perante os novos desafios. Os programas não estão conforme as necessidades da novel sociedade da informação. A maioria deles são excessivos, ambiciosos e provocam mais ignorância do que sabedoria ao promoverem o desinteresse e premiarem as cábulas.

Numa sociedade competitiva, em que a riqueza das nações reside no Conhecimento, aquilo de que os alunos necessitam não é a utilização intensiva da memória mas a aplicação criteriosa e criativa do pensamento e da inteligência para aprenderem com sucesso e com entusiasmo.

Neste capítulo, o sistema académico actual capitulou perante o insucesso escolar. Não é com medidas meramente administrativas e avulsas que os problemas se resolverão mas com uma transformação substancial e radical do modelo e dos métodos de ensino.